Cores no Cinema · 11 min de leitura
Game of Thrones construiu ao longo de oito temporadas um dos sistemas de identidade visual mais complexos já desenvolvidos para a televisão. As cores das Grandes Casas de Westeros não são apenas elementos decorativos de banner e escudo: são sistemas de comunicação que funcionam antes de qualquer linha de diálogo, em cada cena de batalha, em cada sequência de tribunal, em cada encontro entre personagens de facções diferentes. A heráldica medieval foi, historicamente, desenvolvida para resolver um problema prático: como identificar aliados e inimigos em batalha quando rostos estão cobertos por elmos. A série de TV da HBO herdou essa função e a expandiu para um sistema narrativo completo.
O designer de guarda-roupa Michele Clapton, responsável pelos figurinos das primeiras seis temporadas, trabalhou de forma sistemática para garantir que a cor dos trajes comunicasse afiliação, lealdade e estado interno dos personagens. Não era suficiente que um personagem dos Stark usasse cinza por convenção heráldica. Clapton precisava garantir que o tom específico de cinza comunicasse a temperatura emocional correta para aquela cena específica.
"As cores dos trajes em Game of Thrones não são sobre moda medieval. São sobre quem tem poder, quem perdeu, e quem ainda não sabe que vai perder."
Michele Clapton, entrevista ao The Guardian, 2015
Cada Grande Casa tem uma identidade cromática de duas cores que aparece em banners, armaduras, trajes e ambientes. Essas duplas de cores funcionam como logos visuais que o espectador aprende nas primeiras horas da série e usa automaticamente para decodificar as cenas subsequentes. Abaixo, as identidades cromáticas das casas mais relevantes da série:
A Casa Lannister é o exemplo mais poderoso de identidade cromática na série. O escarlate e o ouro comunicam exatamente o que os Lannister querem comunicar: poder e riqueza. São as cores dos reis, dos imperadores, das instituições que se consideram superiores. Não é coincidência que essas sejam também as cores do Leão Lannister: um leão dourado sobre campo escarlate é a heráldica do predador máximo, do topo da cadeia alimentar política.
O que distingue Game of Thrones de outras produções de fantasia medieval é que o figurino não apenas comunica afiliação de casa: comunica estado emocional, arco de personagem e relação de poder em tempo real. Os Stark de Winterfell usam cinzas e marrons nos primeiros episódios não apenas porque são da Casa Stark, mas porque são personagens em seu estado natural, ainda não contaminados pela política de Porto Real.
Quando os personagens chegam a Porto Real, as cores começam a escorregar. Sansa passa a usar mais dourado e bordô, as cores do poder e da sedução que Porto Real representa. Ned Stark, incorruptível, continua com seus cinzas do Norte mesmo em meio ao calor político e cromático da capital. Isso cria uma tensão visual que o espectador processa inconscientemente: Ned não se adapta cromaticamente porque não se adapta moralmente, e ambos os processos terminam da mesma forma.
Sansa Stark é o personagem com o arco cromático mais documentado e estudado da série. Ela começa como uma menina do Norte: trajes cinza-frios, cabelos castanhos soltos, a paleta honesta e sem adorno de Winterfell. Quando vai para Porto Real e se encanta com os Lannister, seu guarda-roupa começa a incorporar vermelhos e dourados, as cores da Casa que ela admira ingenuamente. É o início da sua corrupção por assimilação cromática.
Depois das mortes de Ned e do Rei Robert, Sansa começa a usar azuis mais profundos, uma paleta de distância emocional e proteção. Quando está sob tutela de Cersei, usa pretos e vermelhos escuros. Quando escapa para o Vale de Arryn com Meñinha do Baile, seu figurino incorpora uma cor completamente nova para ela: negro profundo com detalhes de pena. A Sansa sombria e estratégica das últimas temporadas usa cinzas-frios do Norte novamente, mas agora são cinzas de quem aprendeu o jogo por inteiro.
Daenerys Targaryen começa a série no azul e no ouro do povo Dothraki (roupas que lhe foram dadas, não escolhidas). À medida que conquista poder próprio, sua paleta migra para brancos e pratas progressivamente mais puros. O branco de Daenerys não é o branco da paz ou da neutralidade: é o branco do poder absoluto, da ausência de cor que absorve todas as outras.
Nas últimas temporadas, quando Daenerys está no pico de seu poder, usa branco quase exclusivo. Quando inicia sua descida à violência indiscriminada sobre Porto Real, a cena é fotografada de forma que ela parece cercada de chamas laranjas e vermelhas: as cores dos Targaryen originais, do fogo, do dragão incontrolável. O branco queima no laranja, e a combinação visual comunica a dissolução entre o poder controlado e a destruição.
| Casa | Cor Primária | Cor Secundária | Significado Visual |
|---|---|---|---|
| Lannister | Escarlate #AA0000 |
Ouro #FFD700 |
Poder dinástico, riqueza ostentada, predação política |
| Stark | Cinza #4A5568 |
Branco #E8E8E8 |
Honor sem adorno, inverno como identidade, resistência |
| Targaryen | Negro #1C1C1C |
Sangue #AA0000 |
Destruição e renascimento, fogo negro dos dragões |
| Baratheon | Negro #1C1C1C |
Dourado #FFD700 |
Força bruta, legitimidade conquistada à força |
| Tully | Azul #1A4A8B |
Vermelho #C0392B |
Lealdade familiar, rios e fronteiras, tensão interna |
| Tyrell | Verde #2D7A2D |
Ouro #FFD700 |
Abundância da terra, diplomacia floral, riqueza suave |
| Martell | Solar #D4A017 |
Sangue #C0392B |
Calor mediterrâneo, vingança lenta, paixão irresistível |
| Patrulha da Noite | Negro #1C1C1C |
Cinza Escuro #3A3A3A |
Morte voluntária para o mundo, fim de identidade civil |
O Rei da Noite e os Caminhantes Brancos têm a paleta cromática mais singular da série: um azul-gelo sobrenatural que não existe em nenhuma das outras facções. Não é o azul frio dos Stark, nem o azul da Casa Tully. É um azul que excede a temperatura natural, um azul que parece emitir frio (#A8D8F0 com adição de emissão luminosa nos VFX).
Essa paleta comunica que os Caminhantes Brancos não são uma fação política como as outras: são uma ameaça existencial que existe fora do sistema cromático de Westeros. Nenhuma das cores das Grandes Casas funciona contra eles. O fogo dos Targaryen (vermelho-laranja) e o vidro de dragão são as únicas forças que os afetam, e as cenas de combate contra os Mortos Ambulantes são deliberadamente fotografadas para que o laranja do fogo apareça como a única cor quente no meio de um frame dominado pelo azul-gelo.