Cores no Cinema · 10 min de leitura
Euphoria (HBO, 2019) é, antes de qualquer coisa, um exercício visual. O diretor de fotografia húngaro Marcell Rév criou para a série uma gramática cromática que não descreve a realidade dos personagens, mas descreve seus estados internos. Cada paleta de cada cena é menos sobre o que está acontecendo e mais sobre o que o personagem sente enquanto isso acontece.
Rév trabalhou com a criadora e produtora executiva da série, Sam Levinson, para definir um princípio central: o estado emocional de Rue Bennett, a narradora, deveria contaminar cromaticamente o espaço ao redor dela. Quando Rue está em abstinência, as cores desvanecem para um azul-acinzentado. Quando ela está sob efeito de substâncias, o roxo profundo e o magenta invadem o frame. Quando ela está em remissão e esperançosa, cores quentes e âmbares aparecem timidamente.
"Não filmamos a realidade. Filmamos como a realidade parece quando você tem dezessete anos e está sofrendo."
— Marcell Rév, entrevista à Variety, 2019
O resultado é uma série visualmente única na televisão contemporânea. Mesmo sem o áudio, um frame de Euphoria é reconhecível imediatamente pela paleta de roxo profundo, glitter e neon que Rév estabeleceu como a "assinatura visual" da série.
O roxo de Euphoria não é o roxo lavanda de um quarto de adolescente comum. É um roxo de profundidade quase absoluta: o roxo que existe nos limites entre o visível e o não-visível, entre a consciência e o transe. Em termos técnicos, é um roxo com alta saturação e luminosidade muito baixa, o que o torna simultaneamente vivo e opressivo.
Psicologicamente, o roxo profundo está associado em múltiplas culturas à alteração de consciência, ao misticismo e ao luto. Rév escolheu esse tom específico para representar o estado dissociativo de Rue porque ele carrega todas essas associações ao mesmo tempo: Rue está em transe, Rue está sofrendo, Rue está fora de si. O roxo contém essas três coisas ao mesmo tempo.
Se o roxo profundo é o estado de Rue em transe ou sofrimento, o magenta e o azul cobalto representam a euforia química: o momento em que uma substância atinge o sistema e o corpo responde com uma onda de calor e leveza. Rév usa esses tons mais saturados e mais luminosos para marcar os momentos de "pico" emocional, seja de prazer ou de intensidade dramática.
O azul cobalto (#0047AB) é particularmente importante porque é um azul que não é frio: é tão saturado que parece quase elétrico, quase vivo. Em contraste com o azul-cinza frio que em outros filmes representaria frieza ou tristeza, o azul cobalto de Euphoria é energético e perturbador. É o azul do flash de luz antes de um espasmo, o azul da consciência alterada.
A dupla magenta-cobalto cria uma dissonância visual proposital. São cores que não "combinam" no sentido tradicional do design, mas que juntas criam uma sensação de desequilíbrio e urgência que é exatamente o estado emocional da maioria dos personagens da série durante suas cenas de maior tensão.
O uso do glitter em Euphoria é possivelmente o elemento de design de produção mais discutido da série. A supervisora de maquiagem Donni Davy criou looks com glitter que rapidamente se tornaram fenômenos culturais e influenciaram diretamente as tendências de maquiagem de 2019 a 2021.
Mas o glitter em Euphoria não é simplesmente uma escolha estética de maquiagem. É um instrumento narrativo. O glitter reflete luz e, portanto, é dependente da luz ao redor para existir. Em cenas escuras e de baixa energia, o glitter some ou se torna invisível. Em cenas de alta energia com iluminação dramática, o glitter explode e multiplica a intensidade da cena.
Esse comportamento óptico do glitter permite que Rév use-o como amplificador da paleta principal. Uma cena de roxo profundo com glitter nos olhos de Rue cria um efeito de constelação escura. Uma cena de magenta com glitter dourado nos cabelos cria uma sensação de combustão visual. O glitter não tem cor própria: tem a cor da cena que o ilumina.
Cada personagem de Euphoria tem uma paleta de figurino e iluminação cuidadosamente definida que funciona como uma impressão digital visual. Ao longo de uma temporada, o espectador aprende inconscientemente a associar uma determinada combinação de cor com um estado emocional específico de um personagem específico.
| Personagem | Paleta Principal | HEX Central | Estado Emocional Representado |
|---|---|---|---|
| Rue Bennett | Roxo Profundo / Índigo | #4A0080 |
Dissociação, dependência, busca |
| Jules Vaughn | Magenta / Rosa Intenso | #C71585 |
Energia, romantismo, conflito de identidade |
| Maddy Perez | Azul Cobalto / Dourado | #0047AB |
Poder performativo, vulnerabilidade oculta |
| Cassie Howard | Pêssego / Rosa Suave | #FFDAB9 |
Feminilidade performativa, fragilidade |
| Nate Jacobs | Azul-Marinho Escuro | #1C2B3A |
Controle, masculinidade tóxica, repressão |
| Kat Hernandez | Vermelho / Preto | #8B0000 |
Transgressão, autodescoberta, poder sexual |
| Lexi Howard | Verde Sálvia / Neutros | #6B8E6B |
Observação, equilíbrio, presença narrativa |
Cena — Rue na Festa de Halloween (T1E2)
Cena — Jules e Rue no Trilho do Trem (T1E4)
Cena — Baile de Formatura (T1E8)
O efeito visual de Euphoria é essencialmente uma combinação de três técnicas de CSS que trabalham juntas: fundos escuros com baixa luminosidade, sombras de brilho (box-shadow com cor) e bordas com opacidade reduzida. Juntos, esses elementos criam a sensação de objetos que emitem luz em vez de simplesmente refletirem luz.
Para explorar paletas completas baseadas nos tons de Euphoria e criar combinações harmoniosas a partir desses roxos e magentas, use nossa ferramenta de paletas. Para trabalhar com opacidade e transparência em camadas, como o efeito de brilho que Rév usa, acesse nossa ferramenta de opacidade.